segunda-feira, setembro 20, 2021
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Pet influencers: a vida dos bichos que são estrelas do Instagram e TikTok

Especial: A Vida por trás dos Pet Influencers
Pet influencers: a vida dos bichos que são estrelas do Instagram e TikTok (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Algum dia seria possível imaginar que mais de 6 milhões de pessoas seriam seguidoras de um cachorro falante que não fosse da Disney? Ou talvez que o ato de adotar um animal pudesse mudar completamente a vida profissional de alguém?

Essa é a realidade com os pet influencers, que fazem sucesso na internet, criam negócios e geram engajamento em histórias de parceria com seus humanos — na web e fora dela.

No início era tudo mato (e memes)

Animais de estimação estão presentes nos veículos de mídia há muito tempo, seja para divertir ou emocionar os humanos. Na maior parte dos casos, esses animais de cinema e TV eram treinados por grandes empresas para “atuar” em produtos de mídia. Devido à popularização da tecnologia e o crescimento das redes sociais, pessoas comuns começaram a criar perfis de seus pets para postar fotos e aventuras.

Esse fenômeno fez com que alguns animais começassem a ganhar destaque nas redes. Um dos primeiros e mais emblemáticos casos de grande sucesso envolvendo pet influencers está relacionado à Tardar Sauce, que você deve conhecer como The Grumpy Cat, ou “A gata mal-humorada”. Provavelmente, se viveu na internet de 2012 em diante, em algum momento deve ter se deparado com algum meme deste felino.

A gatinha virou fenômeno nas redes quando Bryan Bundesen postou uma foto da gata de sua irmã, Tabatha Bundesen, no fórum Reddit em 22 de setembro de 2012. Devido a sua cara invocada, resultado de uma espécie de nanismo felino, a gata foi parar em diversos fóruns, comunidades e foi sempre relacionada a diversos memes que envolviam mau-humor, ironia e sarcasmo.

The Grumpy Cat virou um fenômeno na internet, gerando vários produtos e campanhas. A gata deu entrevistas na Forbes, fez crossover com outros felinos famosos como o Garfield e teve até seu próprio Especial de Natal em 2014. Um feito considerável se pensarmos que, em 2012, a internet ainda era muito movida por fóruns que tinham menos alcance e um público mais restrito do que redes sociais. 

Naquela época a produção e compartilhamento de conteúdo para o usuário comum ainda funcionava de forma mais lenta, afinal os celulares mais simples não tinham os mesmos recursos de gravação de vídeo em alta qualidade e a internet não possibilitava o envio e compartilhamento de conteúdo de forma tão rápida.

The Grumpy Cat faleceu em 2019 e sua morte foi assunto em vários noticiários no mundo na época. Entretanto, sua página nas redes sociais segue ativa, administrada por seus tutores, com mais de 2 milhões de seguidores. Tardar Sauce se mostrou uma pet influencer de sucesso, sendo muito importante no objetivo de dominação mundial dos gatos.

Gudan, o Husky: sucesso absoluto num tal de TikTok

Quase uma década após o surgimento de The Grumpy Cat, a popularização da tecnologia permitiu que muitas pessoas produzissem conteúdo em casa e pudessem contar histórias e narrativas de seus pets através das redes sociais.

Um dos fenômenos que mostram que a combinação de pets, tecnologia e redes sociais pode mudar a vida das pessoas é Gudan, o Husky, um canino com senso de humor peculiar que faz diversas observações curiosas sobre suas aventuras diárias, enquanto coloca apelidos em humanos.

Gudan conta a marca de 6 milhões de seguidores no TikTok e mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, entre outras redes.

Gudan o Husky ( Imagem: Reprodução/ Instagram)

O perfil foi criado pelo casal paranaense Zanq e Isabelle em junho de 2020 em meio à pandemia de Covid-19. Em entrevista ao Tecnoblog, o casal contou que ambos tinham muitos planos e objetivos profissionais para 2020, mas ninguém contava com uma crise de saúde que mudou o mundo.

Zanq e Isa (Imagem: acervo pessoal)

Zanq, na verdade se chama Eduardo (embora seja chamado de Carlos pelo Gudan), tem 23 anos, é cantor e havia conseguido certo destaque com suas músicas em plataformas digitais. Ele até abriria um show do rapper Projota no Paraná no início de 2020, quando seus planos foram alterados, no momento em que as casas de show foram fechadas em decorrência das medidas de combate à pandemia.

Isabelle Miranda tem 26 anos, é publicitária e maquiadora profissional e passou por uma situação semelhante. Tinha sua agenda de eventos para 2020 completa, mas com a pandemia os cancelamentos foram constantes. “Houve semanas em que eu recebia ligações diariamente para o cancelamento de trabalhos”, disse ela ao Tecnoblog.

Com ambos “desempregados”, o casal decidiu mergulhar nas redes sociais e participar de diversos tipos de desafios nas redes. Foi então que eles foram sugeridos por amigos a se aventurarem em um novo aplicativo que ainda era pouco conhecido do público geral no Brasil naquele tempo, um tal de TikTok. 

O casal não tinha experiência com o uso dos recursos do aplicativo e o modelo de criação de conteúdo para a plataforma, por isso, decidiram criar um perfil para seu cachorro e testar a rede para entenderem como funcionava. O perfil do canino viralizou em poucas semanas e eles não saíram mais das redes.

A cachorrinha ciclista Yellow

Outra história de parceria e mudança de vida é a de Gabriel Pego e Yellow, a cachorrinha ciclista. 

Tudo começou em 2017, às margens da Represa de Guarapiranga, quando Gabriel foi andar de bicicleta com amigos e acabaram encontrando uma cachorrinha amarela em um caixote. Todos fizeram amizade com a cachorrinha, mas no final do dia, ninguém poderia ficar com ela, inclusive Gabriel que nunca havia tido um animal de estimação até então.

De noite, enquanto voltava para casa, Gabriel disse que sentiu um aperto no peito, voltou até à represa e trouxe a cachorrinha dentro de seu casaco enquanto pedalava. Inicialmente a ideia era ser um lar temporário, mas Yellow conquistou a todos e o lar temporário se tornou permanente.

Gabriel e Yellow (Imagem: Yellow a ciclista/ Instagram)

Gabriel notou que Yellow ficava bastante tranquila na bicicleta e começou a realizar passeios com ela após três meses. Inicialmente os passeios eram curtos como ir até o Parque Ibirapuera, mas com o tempo as distâncias foram aumentando. Gabriel disse que gostaria de produzir conteúdo para internet sobre esportes radicais e viu que não havia conteúdos sobre cães ciclistas, então a oportunidade apareceu.

O problema das cópias e apropriação de conteúdo alheio

O processo para um criador de conteúdo estourar nas redes nem sempre tem uma fórmula ou plataforma definida. No caso de Gudan e a Família Turbo, a rede que fez o perfil se destacar foi justamente o TikTok, que ainda poderia ser considerado “novidade” no Brasil em junho de 2020.

Como o perfil do Gudan viralizou de forma muito rápida por seu conteúdo divertido e engraçado, Zanq e Isa sofreram com um dos maiores problemas enfrentados por criadores de conteúdo na internet: a apropriação de conteúdo. Eles contaram que os vídeos do Gudan se tornaram virais e começaram a ser replicados em diversas redes por outros perfis sem que os devidos créditos fossem dados. 

O casal decidiu que seria necessário partir para outras redes sociais mais famosas e estabelecidas para garantir a autoria de seu conteúdo, expandir sua presença e evitar que contas falsas se apropriassem dele. Foi assim que decidiram criar uma conta para o Gudan no Instagram, não apenas para proteger seu conteúdo, como também para converter mais humanos à causa do “modo turbo” e para que conhecessem as observações sobre a vida promovidas pelo canino.

Gudan fala sobre a castração

Atualmente o Gudan encontra-se no TikTok, Instagram, YouTube, Facebook, Twitter, Kwai e Waze, se mostrando um canino multimídia.

Gabriel iniciou a página da Yellow no Instagram em 2018. Após quatro meses eles haviam conseguido cerca de 5 mil seguidores, até que uma seguidora compartilhou a história no Twitter e acabou viralizando. O número de seguidores disparou, fazendo com que Gabriel e Yellow fossem até mesmo em programas de TV como o Encontro com Fátima Bernardes, na Globo.

Yellow tem perfis no Instagram, Facebook e YouTube, com maior foco no Instagram, mas está de olho nas novas plataformas como TikTok e Kwai.

Como o conteúdo animal nasce

Não há como filmar os cães o tempo todo, é claro. Zanq é responsável por editar e fazer as vozes de Gudan, Blant (a irmã do Gudan) e outros seres não humanos que eventualmente aparecem nos vídeos, enquanto Isa cuida da parte administrativa e questões relacionadas aos contratos e parcerias.

Embora muitas pessoas pensem que a voz do Gudan seja feita pelo Google Translator, é tudo feito por Zanq que disse não ter uma inspiração específica para criar os roteiros e vozes, com inspirações vindo de fontes variadas. Desde narrações dramáticas de documentários do National Geografic, até teleaulas de algum curso aleatório que ele não vai fazer, como foi relatado por Isa.

Gudan e a chuva de pedros

No início eles costumavam sempre gravar, editar e postar no mesmo dia. Com o tempo, passaram a acumular horas de gravação e conseguiram ter margem maior para trabalhar com o conteúdo. Mas nem sempre foi assim: eles chegavam a trabalhar até 16 horas por dia, o que gerou muito estresse em ambos e foi quando decidiram que precisariam de uma equipe.

Neste período decidiram que seria necessário ter o suporte de uma agência, a Collective, para cuidar das questões relacionadas ao relacionamento com marcas. Para quem está começando a ter destaque nas redes sociais, Zanq recomenda procurar uma agência ou alguém especializado em marketing de influência, pois esse profissional vai ter a expertise de saber como agir e precificar os trabalhos.

Já a cachorrinha ciclista Yellow tem uma rotina “normal”, se é que podemos usar essa palavra. É nos fins de semana que ela e Gabriel vão para os passeios mais radicais, como trilhas e travessias de bike. Uma das sessões de pedal rendeu 255 km em cerca de seis horas.

Gabriel, Yellow e o pedal de 255 km

Viver de internet não é tão simples

Quando Zanq e Isa entraram no TikTok, a plataforma ainda não oferecia remuneração, e mesmo aquele código maroto que você pode compartilhar para convidar outras pessoas não existia. Dessa forma, o famoso “viver da internet” era uma tarefa complicada.

A primeira vez que receberam um contato sobre publicidade foi quando o perfil tinha cerca de 50 mil seguidores. Foi um contato para fazer uma propaganda de petiscos para pets. Eles ficaram super animados, mas os contratos que de fato renderam dinheiro só começaram a surgir algum tempo depois.

Ter um animal de grande porte não é barato, como disse Zanq, entretanto Gudan teve uma ascensão tão rápida nas redes que em outubro de 2020 o cão já pagava suas despesas e atualmente o casal consegue viver dos conteúdos produzidos pelos canais de seus pets.

“Nós falamos que antes a gente pagava a comida do Gudan. Hoje ele paga a comida da gente e viramos funcionários dele”

Isabelle Miranda – Tutora do Gudan

Campanhas publicitárias: muito além de produtos para pets

Para surpresa de muitas pessoas, a maior parte dos contratos e parcerias de publicidade feitos com o Gudan e a Família Turbo não estão relacionados ao mundo dos pets, mas sim, a produtos para humanos. Eles já fizeram propagandas de cervejas para cachorreiros, marcas de tinta, aplicativos de delivery, apps de idiomas e até serviços de streaming.

Há muito mais publicidade direcionada ao consumo de humanos do que outras relacionadas com os pets. Um processo que faz sentido já que o conteúdo produzido no perfil está relacionado a um humor bastante abrangente que funciona tanto para pais de pets, quanto para pessoas que gostem de um conteúdo divertido de um husky falante.

Os pet influencers estão tão em alta que algumas empresas focaram suas campanhas de lançamento de novos produtos nesse grupo de criadores de conteúdo, como foi o caso do Burger King, que lançou no país o Dogpper, um petisco canino. O produto conta com uma identidade visual semelhante aos lanches para humanos e a campanha de lançamento estimulava que tutores de pets pedissem o Dogpper juntamente com seus combos de lanches em pedidos para entrega.

Campanha Dogpper (Imagem: Divulgação)

A assessoria do Burger King informou ao Tecnoblog que o Brasil é o segundo país que mais comercializa produtos para animais de estimação, com 6,4% da participação global, e o Dogpper foi uma forma de aproveitar esse hype, atrair novos consumidores e construir uma nova ação social da marca focada no universo pet.

Segundo a marca, os pet influencers são estrelas do momento nas redes sociais e promovem seu conteúdo com muito engajamento e propriedade. Por isso, para a campanha foram escolhidos perfis com grande alcance.

Campanha Dogpper

A campanha chegou a marca de 719 milhões de impressões e 460 publicações orgânicas, contando imprensa e redes sociais. Também foi importante para entrada da marca no TikTok, já que com menos de um mês, o perfil atingiu mais de 100 mil fãs e mais de 50 milhões de visualizações de seus conteúdos.

Durante a campanha, a empresa permitiu que os pagamentos que envolviam o Dogpper fossem feitos com Dogecoins, a criptomoeda que surgiu baseada em um meme de um cachorro Shiba Inu e que eventualmente aparece entre os tweets do bilionário Elon Musk.

Dogecoin (Imagem: Reprodução)

Segundo o Burger King, a adesão à forma de pagamento foi relativamente boa, tendo em vista que as criptomoedas ainda não estão sendo amplamente utilizadas e foi a primeira inserção da empresa nesse ambiente.

A criação de uma mochila para pets 

Pet influencers contam com interações com marcas para gerarem sua receita, mas em alguns casos, criam suas próprias empresas e produtos, como foi o caso de Gabriel que criou a Yellow Pet, sua marca de mochilas para transporte para cães.

Como Yellow acompanha Gabriel na maioria de suas aventuras, ele sempre procurou acomodar sua companheira de quatro patas da melhor forma que podia, porém, identificou a falta de um produto que fosse confiável e deixasse a Yellow confortável, já que cestinhas e mochilas comuns não faziam isso. Ele pesquisou por produtos no Brasil e no exterior, mas não identificou nada que o atendesse.

Em conversa com um amigo designer de artefatos e uma veterinária, criou modelos para que humanos conseguissem carregar cães de até 20 kg em aventuras. Parece simples falando agora, mas o processo completo entre desenvolvimento do produto e estruturação da empresa levou quase um ano.

Como colocar um cão na mochila Yellow Pet

A principal fonte de renda de Gabriel e Yellow vem da venda das mochilas, embora também façam publicidade de produtos. Gabriel, assim como os tutores do Gudan, também participou de campanhas publicitárias de produtos para humanos, como quando fez parceria para divulgar o Motorola One Action, um celular que tinha uma câmera angular e focava em pessoas que praticavam esportes radicais e atividades na natureza. Ao Tecnoblog, Gabriel adiantou que Yellow participará de um projeto da Netflix relacionado a negócios inovadores. Fique de olho.

Ter um pet mudou a vida dos humanos (e dos pets)

Zanq e Isa procuram ajudar a causa animal apoiando ONGs e fazendo doações. Para isso eles criaram os quadros semanais “Ajuda Gudanzinho” e “SOS Blantossaura” em que compartilham informações sobre ONGs e pessoas que precisam de ajuda. Esse é um tema sensível para eles devido ao fato de Gudan e Blant serem cães comprados. “O fato de nossos cães serem comprados não nos torna incapazes de apoiar causas como a adoção”, diz Zanq. Os quadros relacionados às campanhas de ajuda em seis meses geraram cerca de 20 mil reais em doações e ajudaram mais de 100 animais.

A atitude de ter um pet mudou completamente a vida dos pets e de seus humanos. Afinal, se Zanq e Isa não tivessem o Gudan, suas vidas provavelmente seriam bem diferentes. O mesmo vale para Gabriel, que antes de adotar a Yellow pensava em ser atleta e viver da bike de alguma forma.

“Quem diria que eu ia trabalhar fazendo o que eu gosto, que é pedalando e produzindo conteúdo, porém com um cachorro. Então, o meu sonho se concretizou. Só que de uma forma diferente.”

Gabriel Pego – Tutor da Yellow

Pet influencers: a vida dos bichos que são estrelas do Instagram e TikTok

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